Representando um papel

Archive for fevereiro 2009

Marcello, Suzana, Bill

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Um dia turbulento. Na vida do advogado Marcello tudo era corrido. Apesar de possuir poucos clientes, Marcello sempre estava ao celular ou correndo de fórum em fórum. Aquele dia não foi diferente. Às 19 horas, ele finalmente tinha encerrado uma reunião e se preparava para ir, enfim, para casa. Queria carinho, comida, água, cama, banho e descanso.

“Devia ter me casado com a Suzana. Agora, eu teria uma comida quentinha me esperando em casa e uma mulher para me escutar”, pensou ele enquanto cruzava a 23 de Maio. Seu pensamento naquele dia estava longe e, por algumas vezes, quase bateu o carro. Sabia que ao chegar em casa precisaria passear com o Bill, seu cachorro de apenas 4 anos, enviar alguns e-mails para os clientes, se atualizar, responder os e-mails de seus preocupados amigos e colocar a usual lazanha congelada no forno.

A solidão lhe apetecia, mas tinham dias difíceis. Comprou Bill por pensar que um cachorro o ajudaria a suprir seu desejo por atenção. Claro, sem sucesso. Muito pelo contrário. O pequeno cachorro de pêlos dourados era acostumado a ficar com a diarista e quase sempre rosnava ao ver o cansado advogado.

Ao abrir a porta de seu apartamento, Marcello pôde sentir o cheiro de limpeza. Aquilo o confortava de alguma forma. Ele sabia que os lençóis brancos de sua cama estariam ali, prontos para acolherem e sugarem para si o cansaço de um longo dia. Mas aquilo já não era o suficiente.

Às 2 horas da manhã, estava preparado para dormir. Bill estava no pé da sua cama e Marcello vestia o seu pijama listrado. O pijama que ela havia dado. Ele ainda mantinha os mesmos costumes, até o de desejar boa noite à Suzana. Ao mesmo tempo que a amava, que não tinha tido outra mulher além dela, ele a odiava. A odiava por ter feito passar por tantas coisas.

Entre seus sonhos, Marcello sempre recordava aquela cena. Ela, sentava na beira daquela mesma cama, olhando nos seus olhos, falando que ele não tinha coração, que era frio e que ela estaria melhor sem ele. Ele que sempre se pôs a trabalhar para dar tudo do bom e do melhor para aquela mulher que nada fazia a não ser ficar bonita para ele.

Em um de seus pesadelos, ele até respondia. Respondia o quão egoísta ela estava sendo, que ele a amava e que, apesar de tudo, queria passar o resto dos seus dias com ela. Para ele, amor se resolvia com amor, assim como as brigas e discussões. 

“Mas por que será que não consegui mantê-la por perto?”, pensava quando acordava.

Written by Silvia

10/02/2009 at 11:25 PM

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Você

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Eu te amei como nunca pensei amar alguém. Amei mesmo. Amei de dar o corpo e a alma, de dar o presente, o passado e o futuro. Te dei o meu futuro! Dei o que eu mais tinha pra dar: meu zelo. Dei o que você não merecia, o meu apreço. Te dei o que você queria, a minha vida.

Por muito tempo acreditei que era você que me fazia viver, que fazia com que meu coração batesse e os meus pulmões funcionassem. Por muito tempo acreditei que era com você que eu deveria construir uma vida, uma família, um legado. Por muito tempo te deixei roubar a minha essência, os meus prazeres e as minhas ambições.

Te amei porque realmente acreditei que você me guiava. Mas, no final, provei a mim mesma que você me perdia. Você fazia com que eu desse 50 voltas no mesmo lugar… e, eu, tonta que fui, não percebia.

Written by Silvia

09/02/2009 at 10:26 PM

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Adeus

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Hoje eu me despedi de você. Me despedi do seu apreço, do seu zelo e do seu carinho. Aliás, me despedi do seu respeito. Na verdade, hoje eu provei a mim mesma, pela última vez, que você não tinha nada disso por mim. Você tinha posse, tinha vontade e capricho. Agora não dá mais. Vou embora sim, por favor, não me siga, não bata a porta e não faça besteira. Faço isso porque hoje você provou que me procura por costume, que me procura por ter certeza que me terá. Não, não terá. Não sou assim tão previsível. Sei ser ruim, sei ser omissa e desinteressada.

Não adianta gritar. Não grite comigo. Mantenha a compostura que você um dia teve na minha presença. Chega de palhaçada, de atuar e fingir que o mundo está cor de rosa, que você me quer e que não vive sem mim. Não, amizade? Amizade também não dá, querido. Cadê o respeito que regiria qualquer relação que poderíamos ter? Você foi frio, foi distante e foi mentiroso. Espero que tenha valido a pena. Espero que os beijos dela sejam melhores que os meus, que os abraços dela sejam melhores que o meu, que o cheiro seja mais confortante, assim como as suas palavras, os seus conselhos, o seu sexo e os seus interesses.

Cansei de tentar, de bater a cara na parede, de fazer o faz de conta sozinha. Relacionamentos são difíceis, mas eu tentei, meu bem. Meu bem… meu bem… eu cresci para te dar a melhor pessoa que eu poderia ser. Cresci para te oferecer uma mulher interessante, um bem durável. Eu cresci. Me infantilizei em muitos momentos, principalmente quando pensava em te perder. Me via sem chão e escutar o seu choro me confortava, me fazia ver que eu não tentava sozinha, que você também se preocupava.

Em um momento, você disse que eu devia seguir a minha vida. Pequeno, eu deveria ter seguido. Não deveria ter pestanejado. Não deveria ter chorado, me descabelado ou qualquer coisa assim. Deveria ter sido fria, assim como você é quando fala comigo ao lado dela, dos seus amigos, dos seus familiares e de todos.

Não adianta lutar para me ter do lado. Não adianta, sou mais do que um capricho. Talvez seja menos do que você merece e procura, mas sou mais eu. Sei o quanto eu amei, sei o quanto eu segurei esse sentimento, mesmo quando ele escapava por entre os meus dedos. Sei de tudo isso, você deve saber. Você também se esforçou em momentos.

Se esforçou para esconder que iria sair com ela hoje, mas eu te peguei. Te peguei no pulo, como muitas pessoas diriam. Te peguei e, mesmo assim, você agiu com a sua frieza. A conhecida frieza.

Me despeço e peço para que você não bata a porta quando eu sair. É feio. Vou me reeducar, me encontrar, saber quem sou. Vou te mostrar que amar é ceder, que é deixar a pessoa ser feliz.

Me dê o divórcio, vá ser feliz. Assina essa papel, me deixe livre. Era o que você mais queria, mesmo que não saiba admitir agora. Um dia, quem sabe, a amizade volte, o amor retorne. Mas, hoje, você acabou com o restinho de amor que me segurava, que impedia que eu conhecesse outras pessoas, que me impedia de ser quem eu sempre fui.

Seja feliz com ela. Feliz, assim, como você nunca foi comigo.

Written by Silvia

04/02/2009 at 9:50 PM

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Memórias

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Hoje é inevitável lembrar de você. As lembranças ainda estão frescas, como se tudo tivesse acontecido a poucos dias. Não, fazem dois anos. Dois anos do último acontecimento, do final, do ponto final, do que fez o mundo desabar.

Ainda lembro de você… de você com vida. Lembro de abrir a porta do quarto que não era o seu, apesar de todos falarem: “Ah, o Chang? Ele está no 217. Aquele que está pertinho do posto de enfermagem”.  Mas não, não era o seu apesar de você ter dormido, acordado, descansado e se exercitado naquele lugar. Lembro de como os seus olhos brilhavam a cada vez que a porta abria com uma surpresa: visitas das mais diversas.

Lembro de você balançando os braços enquanto caminhava pelo corredor do 2º andar, o andar que por muitos meses você ficaria preso. Preso, na melhor conotação que isso possa ter. O homem-garoto-moleque-travesso que fazia toda a família contrabandear X-salada para o seu quarto. Lembro da sua última refeição decente. Lembro que você não reclamou do arroz papa e do peixe frio. Tudo tinha tempero, coisa que você já não podia, apesar de estar apenas esperando a autorização de um exame. Exame que você disse com todas as letras que não era sério.

Lembro da etiquetinha amarela que um dia se tornou a verde, a de visitantes de pacientes na UTI ou semi-UTI. Mas não, naquela época, eu consegui ainda viver a amarela, a de pacientes que não estavam praticamente condenados pelos médicos.

Caminhávamos pelos corredores, subíamos e descíamos as escadas – contra a vontade das enfermeiras – brincávamos de palavras cruzadas, assistíamos Discovery Channel antes que eu tivesse que ir para a faculdade, já não era colégio. Te contei tudo, até daquela professora que também era coreana e que você, por coincidência, conhecia o pai.

Naquele dia… aquele dia de fevereiro, o dia 14, tudo desmorou. Eu sabia, você sabia. Eu não queria ir, você me obrigou e me deixou confiante para virar as costas e andar, só esperando você acenar, como sempre fazia, do seu quarto. Eu fui. Fui com o coração despedaçado, a faculdade foi um martírio e eu te liguei na hora que combinamos. Às 15h30. Você já não estava. Só tinha um recado: “Diga que adiantou mas que nos falamos depois”.

Saí da aula correndo pra te ver. O horário de visita, os 30 minutos, iam da 7h30 às 8. Corri, como se disso dependesse a nossa vida, a sua vida. Te encontrei, falei com você. Até você chorar de dor, coisa que nunca tinha visto antes. Te amparei como pude, até você dormir. Dormir para nunca acordar, de fato, pra mim.

Você foi. Você dormiu por meses, meses. Eu acreditei na recuperação por meses. Por todos os meses. Você seria o mesmo pra mim, eu poderia te contar como foi o primeiro ano da faculdade. Se antes eu te contei que já estava com medo de pegar DP de economia e você riu de mim, quando contei que passei você não esboçou uma reação. Mas te contei tudo. Cuidei de você da melhor forma possível, sabendo que não era o suficiente, que você faria mais, faria diferente e melhor.

Mudamos de quarto. Já não era o 217, já não era a UTI. Voltamos para o 2º andar, para o fundo daquele corredor, a semi-UTI. Você já não fazia nada sozinho, não conseguia. Talvez quisesse um descanso dos meus dramas, da minha impaciência e dos meus desejos. Lá, a gente podia ficar mais com você, podíamos deixar os CDs dos Beatles, Elvis Presley, Queen, Freddy Mercury o dia inteiro. Foi ali, naquele lugar que você mostrou que me entendia. Foi naquele dia que eu experimentei ficar feliz e triste ao mesmo tempo. Você estava ali naquele corpo que não correspondia aos seus desejos. Você que queria voltar a jogar tênis e golf, viajar para mil lugares estava preso a um corpo que não te pertencia. Não correspondia aos seus desejos e medos. Aliás, só correspondia aos medos.

Mas em um dia, enquanto tocava Hey Jude, você virou a cabeça pra mim. Os seus olhos ainda estavam distantes, mas você virou a cabeça pra mim quando eu falei que tudo tinha ido bem na cirurgia de uma filha.

Álcool, óleo, creme, fralda, uripen, traqueo, gastro, botas ortopédicas e o pudim da sua cabeça. Tudo de 30 em 30 minutos, assim como a sua posição.

Quando você conseguiu sentar, com ajuda, mas sentar, foi um alívio. Imaginei que teria a paciência do mundo para te ajudar a falar, a comer, a fazer o que fosse preciso. Tinha raiva das enfermeiras que não cuidavam direito, tinha raiva de não poder fazer nada, tinha medo de virar as costas e você me deixar por completo.

Meses de passaram e nos colocaram em um quarto. O 409. Queria matar aquela mulher que ficou olhando pra você como se fosse a coisa mais horripilante do mundo. Será que ela já tinha se olhado no espelho? Tive orgulho. Orgulho porque você sobrevivia a cada dia. O natal chegou, ao ano novo também… e a minha esperança ia acabando. Até você começar a respirar praticamente sem ajuda. Quem é que disse que você não lutava? Quem é que disse que você não ia conseguir? Você conseguiu.

Te falei feliz natal e ano novo por telefone e não tive resposta. Comi as 12 uvas por você e desejei que você melhorasse, assim como fiz no meu aniversário.

Daí, fui viajar e foi o seu aniversário. Te falei com toda a convicção naquele dia que seria o último aniversário que passaria assim. Estava errada. Mas te liguei todos os dias, como sempre fiz. Mas nessa época você já fazia alguns barulhos, os médicos diziam que eram involuntários mas eu sempre soube que não. Você as vezes olhava pra mim, você apertava a minha mão. Você apertava a minha mão!

Mudamos de casa. Uma clínica de retaguarda. Sair daquele hospital depois de um ano e pouco vivendo nele foi doido… confiar em outros profissionais foi doido… mas você tinha condições. Ali, todo mundo te amava, dava pra saber pelo jeito de lidar com você. Dava pra saber pelos relatos das duas cuidadores que zelavam dia e noite por você.

Brigamos pelo melhor quarto. Um que batia um pouco de sol, assim como você gostava. Foi ali que você levantou o braço quando falávamos que você jogava golf. É, levantou o braço. Foi ali que você melhorou e não precisou mais de tantas aspirações. Será que você lembra que descíamos no jardim e ficávamos ali tomando um pouco de sol?

Foi naquele quarto que eu te falei que consegui o meu primeiro estágio. Feliz. Tinha acabado de fazer a entrevista mas fui lá te contar. Você sempre foi o primeiro a saber de tudo.. isso não seria diferente.

Chegou mais um natal e um ano novo… te pedi desculpas por não ter acertado quando disse que o do ano passado seria o último. Chorei quando tive que te falar tchau porque não queria te deixar. Foi aí que entendi… eu precisava de você, não você de mim. Você estava ali por mim…então, naquele jardim te agradeci por tudo, até por ficar tanto tempo sem poder falar nada, até mesmo quando a sua filha saiu de casa. Você agüentou tudo pela família, família que você tanto acreditava.

Daí, chegou o seu aniversário.. Teve bolo na clínica. Teve festa…uma festa bonita, até o pessoal da sua igreja foi! Levaram sacos de fraldas, belo presente, não? Quando todo mundo foi embora, cochichei no seu ouvido que eu entendia que deveria estar complicado para você agüentar… que se estivesse muito ruim, você poderia ir…eu lidaria com a situação e ajudaria quem fosse necessário.

E você foi. Depois que todo mundo te falou o mesmo que eu…você foi. Num dia ensolarado, num sábado. Você foi. Fez questão de avisar a todos que te rodeavam, preparou todo mundo…e foi. No final, você faz falta, uma falta que ninguém vai suprir. Dói, como poucos sabem mas doer me faz ver que pessoa como você nunca vou encontrar.

Written by Silvia

02/02/2009 at 11:31 PM

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